Abr 10, 2021

Após décadas usando armas da Taurus, Polícia Civil de SP compra 4 mil pistolas da Glock por R$ 12 milhões

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Mais de 4 mil pistolas calibre .40 da austríaca Glock foram compradas pela Polícia Civil de São Paulo por R$ 12 milhões — Foto: Divulgação/Polícia Civil de SP

Delegado-geral Ruy Fontes alega que fez troca porque algumas pistolas nacionais tiveram 'disparos acidentais' e armas austríacas são ‘as melhores do mundo’. As Taurus que não apresentarem falhas serão doadas às guardas civis de 16 cidades. Fabricante desconhece problemas.


A Polícia Civil de São Paulo comprou mais de 4 mil armas da Glock por cerca de R$ 12 milhões. As 4.470 novas pistolas semiautomáticas calibre .40 da empresa austríaca chegaram na semana passada e irão substituir as da brasileira Taurus, usadas por décadas por policiais civis e militares do estado.

À medida que as armas da fabricante nacional forem substituídas, as pistolas da Taurus em bom estado e funcionamento serão doadas para a Guarda Civil Municipal (GCM) de 16 cidades paulistas, segundo a polícia. As armas da empresa que apresentarem falhas serão destruídas.

De acordo com a Delegacia-Geral de Polícia do estado, a troca da Taurus pela Glock foi necessária porque, assim como policiais militares, policiais civis também relataram problemas com alguns modelos da pistola brasileira. O mais grave deles foram disparos acidentais, levando risco de vida aos policiais e outras pessoas.

Por meio de nota, a Taurus informou nesta quarta-feira (3) ao G1 que vai entrar com uma representação no Tribunal de Contas do Estado (TCE). A fabricante quer que sejam apuradas supostas irregularidades na condução da licitação vencida pela Glock para vender armas à Polícia Civil (leia íntegra da nota abaixo).

A empresa brasileira informou ainda que desconhece defeitos nas pistolas que estão com a Polícia Civil. De acordo com a Taurus, "o fato dessas pistolas estarem sendo doadas para outras instituições evidencia que inexistem problemas de fabricação."

Procurado pela reportagem para comentar o assunto, o Sindicato dos Delegados de São Paulo pediu urgência na aquisição de armas mais modernas para os cerca de 28 mil policiais civis do estado (saiba mais abaixo).

Pistolas da brasileira Taurus serão substituídas em São Paulo — Foto: Reprodução/Fantástico

“Deram muitos problemas. Algumas disparavam acidentalmente. Por esses motivos resolvemos substituir os lotes”, falou ao G1 o delegado-geral Ruy Ferraz Fontes sobre as pistolas da Taurus.

Em contrapartida, o delegado-geral elogiou a Glock, que venceu a licitação internacional para a venda de armas para a Polícia Civil de São Paulo. “São as melhores armas do mundo. São armas que não falham, passaram nos testes após 10 mil tiros", disse Ruy.


Segundo a polícia, 1.477 pistolas da Taurus que estavam com ela serão as primeiras trocadas pelas da Glock. Mas antes de usarem as novas armas, policiais civis terão de passar por treinamentos com o novo armamento.

Agentes do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), Grupo Especial de Reação (GER) e Grupo de Operações Especiais (GOE) serão os primeiros a receber as Glock. “Elas são imprescindíveis para o policial que trabalha em atividades operacionais”, disse Ruy.

Já as pistolas da Taurus irão para Guarulhos e Diadema, na Grande São Paulo. Até a última atualização desta reportagem, a Prefeitura de Guarulhos não havia se posicionado sobre o assunto.

“No começo deste mês retiramos 80 pistolas .40 da Taurus numa unidade da Polícia Civil”, disse nesta quarta ao G1 Benedito Mariano, secretário de Defesa Social de Diadema.


Atualmente, a Guarda Civil de Diadema usa pistolas calibre 380 milímetros, também da Taurus. “Mas essas novas armas da Taurus, as .40 que foram doadas, só deverão ser usadas em março. Os guardas civis ainda precisam ser treinados para saber como usá-las”, afirmou Benedito.

O objetivo da Polícia Civil é substituir até 2022 todas as Taurus que estão com seus agentes. Eles querem trocá-la por outras pistolas, como as da Glock e a italiana Beretta.

Segundo policiais, existe a possibilidade de que 5 mil pistolas calibre 9 milímetros da Beretta cheguem para policiais civis até o final deste ano. O investimento de cerca de R$ 13 milhões será do governo estadual.

Em 2017, o programa Fantástico mostrou que o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma ação para apurar a denúncia de que armas da Taurus provocavam disparos acidentais (veja acima).

A fabricante Taurus responde a processos administrativos e judiciais por parte da Polícia Militar (PM) de São Paulo e de outros estados por falhas em pistolas e submetralhadoras.

Apesar disso, a Taurus pode participar de licitações públicas. Em 2019, no entanto, a Glock já havia vencido licitação para vender mais de 40 mil pistolas para a Polícia Militar paulista. A PM também está substituindo as armas Taurus dentro da corporação.

O G1 procurou a assessoria de imprensa da Taurus para comentar o assunto. Por meio de nota, a empresa nacional informou que :

"No final de 2019, a Polícia Civil de São Paulo realizou licitação para a compra de aproximadamente 4.000 pistolas semiautomáticas de calibre .40 e a Taurus foi impedida de participar em razão de exigências excessivas tanto na habilitação jurídica quanto técnica do Edital, que deveria ter sido revisto para permitir a ampliação da disputa entre os interessados.

Disso resultou que a Glock America foi a única empresa apta a participar da licitação e chamou atenção que a mesma pistola modelo G22, Geração 5, calibre .40 ofertada à Polícia Civil ao preço de US$ 493,78 foi vendida recentemente à Polícia Militar de São Paulo por US$ 221,48. Outro ponto é que a exportação de armamento da Europa ao território nacional foi intermediada por uma empresa no Uruguai, a Glock America, que não possui atividade de industrialização e comercialização de armas naquele país, nem escritório instalado.

Diante de todo esse histórico, está em andamento uma representação no Tribunal de Contas de São Paulo para apurar possíveis irregularidades na condução desta licitação.

Sobre as alegadas falhas em pistolas antigas da Taurus, as causas só podem ser identificadas em perícias técnicas realizadas de acordo com as normas técnicas aplicáveis, inclusive com verificação das circunstâncias do ocorrido e condições de uso e manutenção da pistola. A empresa desconhece laudos que evidenciem defeitos nessas pistolas dotadas à Polícia Civil. Ainda, o fato dessas pistolas estarem sendo doadas para outras instituições evidencia que inexistem problemas de fabricação.

Desde 2015 a Taurus está sob novo controle e nova gestão e passados mais de 5 anos os efeitos positivos se fazem sentir, reposicionando a empresa no cenário nacional e internacional. Essa nova gestão assumiu a empresa em condições desafiadoras e, desde então, grandes esforços vêm sendo empreendidos para remodelagem da empresa, sua modernização, o lançamento de novos produtos, uma estrita observância das normas do setor e de compliance.

A Taurus é Empresa Estratégica de Defesa, nos termos da Portaria nº 1.346/MD, de 28.05.2014, do Ministério da Defesa, mediante o cumprimento de diversos requisitos impostos pela legislação brasileira. A Taurus está entre as poucas empresas que se dispõe a produzir armas de fogo no Brasil, sujeitando-se a todas as regulações, restrições e dificuldades de que quem produz no Brasil enfrenta. Investir e gerar empregos no país é fundamental."

 

Sindicato dos delegados

“A compra de armas Glock era uma demanda que já deveria ter sido cumprida há muito tempo”, disse à reportagem Raquel Kobashi Gallinati, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo.

Segundo Raquel, o poder de fogo dos policiais sempre tem de ser superior ao dos criminosos. “Há muito tempo as armas da Polícia Civil do estado de São Paulo estão aquém no quesito qualidade e segurança”, criticou a presidente.


Segundo ela, as mais de 4 mil armas que chegaram ainda são um número insuficiente para os quase 28 mil policiais civis do estado.

“Não só pistolas são necessárias. É urgente e necessário a compra de armas longas, como submetralhadoras e fuzis e coletes balísticos e munição, itens essenciais e escassos, até mesmo chegando a ser raridade na Polícia Civil do Estado de São Paulo”, afirmou Raquel.

 

G1


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